E se amanhã não for nada disso


Hoje foi mais um dos dias em que a disposição para viver passou longe. E na real, nem chegou mesmo a passar. E para melhorar (ou não), estava lendo um livro de contos do Miguel Reale, quando me deparo com a história de um senhor de 75 anos enclausurado em sua própria existência:

“Olhou seu corpo, o qual usufruíra por setenta e cinco anos. Levara aquela carcaça por inúmeros lugares, apresentara-a a diversos ambientes, esfregara-a em variados corpos femininos, fizera-a percorrer espaços em apressados passos. Agora nada significava sem os adendos que lhe compunham de modo essencial: a dentadura, os óculos, a bengala, o aparelho de surdez.”
Isso me fez pensar muito sobre a fragilidade da existência e do nosso corpo. E especialmente, me fez questionar se estou aproveitando o tempo e a juventude da forma mais proveitosa: Ser indisposto a maior parte do tempo é aproveitar a juventude? Onde está a proatividade em que tantos falamos?

Será que O DIA do senhor ali da história vai chegar para mim? Afinal, será que um dia irei acordar e ver que não posso mais fazer o que quero por impedimentos físicos? Haverá o momento em que somente irei ver insipidez nesta vida cheia de alternativas? Até quando o meu corpo não me limitará a fazer minhas escolhas e ser independente?

E o pior é que sabemos que aos poucos vamos nos tornando cada vez mais limitados. Comecei a usar óculos, não tenho mais fôlego para correr como em outros tempos e...não, não é preocupante por não serem coisas tão relevantes.  Mas e quando for? Envelhecer é natural, óbvio. Mas é temeroso pensar na possibilidade de que um dia possamos ter arrependimentos e não podermos fazer nada.

Por enquanto, talvez o melhor a fazer seja tentar apreciar ao máximo as coisas que sempre lhe fascinaram e tentar sempre vivenciar novidades que não poderiam ser realizadas na velhice. Sempre gostei de dança, mas nunca procurei uma em específica para praticar. Sempre quis aprender a tocar violão, mas nunca movi um dedo para mudar essa realidade. Juventude, eu sei que aos poucos você vai se esvaindo, mas não ouse em ir embora tão depressa. Só tenho uma pergunta a fazer: Quando isso acontecer, o quão serei eu ainda?

Ouvindo: The White Buffalo - The house of the rising sun


5 comentários:

  1. Ameeeei mesmo seu texto. Me identifiquei demais... Todos os dias me pergunto se realmente estou aproveitando a vida e a juventude como deveria... Vontade até dá, mas levantar mesmo, sair de casa e aproveitar é outra história. Precisamos levantar, é necessário, senão a vida vai passar e quando perceber isso, vamos estar com os 75 anos...
    Ah, amei a música também, não conhecia e tá aqui no repeat!
    Beijos
    www.somosvisiveiseinfinitos.com.br

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    1. Essa música para mim também é uma novidade, descobri ela esses dias. Muito boa mesmo!

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  2. Mari, eu tô ficando velha - tenho 27 anos - e isso é uma coisa que me vem a cabeça quase todos os dias. Será que eu não tô deixando minha vida passar e quando perceber, já vai ser tarde demais? Eu tô me preocupando com as coisas certas? A gente vive uma vida tão escassa de vida, apostando corrida, que não sei o que ganhamos no final.

    Aliás, acabei de me lembrar de um conto MARAVILHOSO de Paulo Mendes Campos, chamado "Para Maria da Graça", que faz alusão ao livro Alice no país das maravilhas, pra dar conselhos à Maria quando ela completa 15 anos. Tem uma passagem que diz: "Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política (...). São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias (...), que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: 'A corrida terminou! Mas quem ganhou?' É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não sabe quem venceu. Se tiveres que ir a algum lugar, não te preocupes com a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste."

    A tal da Vivian

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    1. Vivian, que citação maravilhosa! Não conhecia o conto, mas com certeza vou procurar para ler. Obrigada por ter comentado!

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  3. Bah, o teu post me fez refletir bastante! Eu nunca lembro que um dia vou envelhecer e não vou mais poder fazer tudo que posso agora. Pior que esse dia não demora tanto pra chegar. A sensação que eu tenho é que os anos passam cada vez mais rápido. Bate um pouco de desespero, mas ao mesmo tempo, é um estímulo a mais pra fazer as coisas que vou procrastinando todos os dias. Adorei o texto. :) Beijos!

    http://desapegomental.com/

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